terça-feira, 14 de setembro de 2010

A CULPA É DE QUEM? Viva suas decisões sempre de forma intensa

Artigo publicado no jornal TodoDia, de Campinas, em 14/09/2010

Por que nos sentimos culpados? Todos nós, em algum momento de nossas vidas, já experimentamos o sentimento de culpa. Não ficar em casa com os pais para ir a uma festa; não ligar para o amigo por não querer vê-lo naquele dia; deixar de realizar atividades pessoais para dedicar esforço e atenção à profissão, são algumas das decisões que podem, posteriormente, nos agregar a sensação de que somos responsáveis somente por aquilo que não fizemos. Mas, e as tarefas que escolhemos fazer? Como equilibrar realização e culpa?

Para as mães, a aversão as escolhas de suas tarefas diárias faz com que a sensação de estar agindo de forma incorreta tome conta da sua essência. Um estudo realizado pela Universidade Colúmbia de Nova Iorque (EUA) e divulgado na primeira semana de agosto deste ano, revelou que, no primeiro ano de vida da criança, o trabalho materno não afeta significativamente no seu desenvolvimento emocional ou na sua capacidade de aprendizado no futuro.

A pesquisa americana, realizada durante sete anos com mais de 1.000 crianças, conclui que a mulher não precisa se martirizar por não acompanhar o pequeno nos primeiros momentos da vida dele. Ainda assim, é de duvidar que as mães deixem de se culpar pela ausência nas descobertas do dia a dia da criança. Esse fato pode ser explicado pela cobrança imposta pela sociedade à mulher e, também, a própria figura feminina que mantém um grau alto de exigência do cumprimento de suas atividades como mãe, esposa e profissional.

Por que somos tomados por esse sentimento que tanto nos machuca e por vezes perdura por um longo tempo? As pessoas costumam tomar decisões no chamado “piloto automático”, deixando de lado a consciência do corpo, mente e alma naquilo que estamos a realizar. Então vem a culpa, essa tende a ser uma resposta do nosso verdadeiro EU, aquele que realmente sabe o que importa para nós. Em algum momento de nossas vidas, por algum motivo, a missão que definimos é deixada em segundo plano. Esquecemos os objetivos e metas que estabelecemos para a nossa existência e passamos a valorizar as necessidades externas e as cobranças alheias.

Retomar os desejos do passado e ser sincero com o verdadeiro EU pode não ser tão simples, pois isso significa quebrar a rotina, o condicionamento da conformidade. E é por isso que nos culpamos em deixar a criança aos cuidados de outros tutores, enquanto nos estabelecemos profissionalmente, ou seja, ainda que difícil, a culpa passa a ser um caminho mais simples. Se pensarmos por outro lado, o estudo indica que a ausência pode ser compensada por fatores como a boa qualidade nos tratamentos médicos, a harmonia familiar, a segurança financeira e até a sensibilidade mais aguçada da mãe que se realiza no trabalho.

A missão é o despertar, é a consciência de que não estamos aqui por acaso, que existe um caminho de crescimento e desenvolvimento a ser seguido de acordo com nossos valores e somente nós somos os responsáveis por cada passo nessa caminhada rumo ao desejado. Definido esses conceitos é hora de agir, você verá que a colheita será de realizações. Quando agimos de acordo com nossos valores, não somos tomados pela sensação de omitir algo e conseguimos dar continuidade a nossa jornada. Diariamente temos a oportunidade de definir quem somos através de nossas escolhas, que vai desde a roupa que será usada para ir ao trabalho até se iremos voltar a padaria para devolver o troco que estava errado. São essas escolhas que moldam nosso caminho, tornando-o mais leve ou cheio de pedras. O segredo é justamente esse, ter objetivo, fracionar nossa missão traçando metas e transformando-as em ação.

Se houver dúvidas entre ser mãe ou se dedicar a uma carreira profissional, pare, ouça apenas seu coração, sua consciência, com base em seus valores e crenças. Saiba que muitas vezes buscamos em outros lugares as respostas que estão dentro de nós. Mentalize seu objetivo, faça um balanço da situação, avalie se existe um meio termo e, caso não haja, perca o medo de decidir pois quando a escolha estiver pautada naquilo que você realmente acredita, será a decisão correta, não para os outros, mas para você, e é isso o que importa. Viva suas decisões sempre de forma intensa, assim, se tiver que se arrepender de algo será das atividades que realizou, jamais de algo que deixou de fazer.
Anderson Cavalcante
Administrador de empresas com ênfase em marketing e
MBC pela University of Florida

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

QUE GRAÇA,TÃO ESPERTINHO

Artigo publicado, em 17/08/2010, no Caderno Equilíbrio, da Folha de S.Paulo

Os pais permitem que a criança perceba seu poder de dar orgulho e que assuma atitudes cada vez mais ousadas

HÁ UMA frase que passou a ser muito popular entre os pais: "Meu filho nasceu com um chip diferente".

Existe uma crença atual generalizada entre as pessoas que têm filhos de que o seu rebento é precoce para a idade que tem. Uma dessas mães me disse uma frase bem-humorada que expressou muito bem tal convicção:"Eu não sou mãe coruja, eu tenho razão".

Muitos adultos têm dito que as crianças mudaram muito. Acreditam que, agora, elas têm vontade própria para quase tudo e que sabem escolher, que têm "personalidade", ou seja, que sabem impor seus pontos de vista e opiniões, que não aceitam muitas restrições e que conversam sobre os assuntos mais variados com a naturalidade e a propriedade de um adulto, entre outras coisas.
Esse pensamento geral exige uma reflexão, já que as crianças continuam sendo crianças como sempre foram, desde que a infância foi inventada. O que mudou muito foi o mundo em que as crianças vivem hoje. E, claro, mudaram seus pais e o modo como eles tratam seus filhos. E uma dessas mudanças, em especial, merece toda a nossa atenção. Eu me refiro ao modo como muitos pais permitem que seus filhos os tratem.

Quem frequenta o espaço público e observa o relacionamento entre pais e filhos certamente já presenciou, e não raras vezes, crianças de todas as idades e adolescentes tratarem seus pais com agressividade, grosserias, gritos e palavrões.

Uma conhecida me contou, indignada, que passou a tarde com uma amiga e testemunhou a filha dessa amiga, de 11 anos, chamar a mãe de "burra" e de "idiota".

Paralelamente a esse fenômeno, já temos também notícias sobre mães que foram espancadas pelos filhos.

Conversei com alguns pais que vivem esse drama e eles se posicionam de modo muito semelhante: não sabem o que fizeram de errado para que os filhos os tratem dessa maneira e não sabem também como reverter a situação.
Temos algumas pistas que nos ajudam a entender como se constrói tal quadro.
A primeira pista foi citada logo no início. O fato de os pais considerarem seu filho esperto permite que essa criança perceba o poder que tem de deixá-los orgulhosos e, pouco a pouco, vá assumindo atitudes cada vez mais ousadas na relação com eles e, consequentemente, com os adultos de modo geral.

A segunda pista está localizada no lugar que muitos pais querem ocupar em relação ao filho. Mais do que pais, querem ser seus amigos. Isso não dá certo, já que amigo ocupa sempre um lugar simétrico ao da criança ou jovem e, nesse caso, não há lugar para autoridade. Os pais podem, isso sim, ser pais amigáveis, mas nunca amigos dos filhos. O comportamento juvenil dos pais, independentemente da idade que tenham, também contribui muito para que os filhos os vejam como seus pares e não como seus pais.

Finalmente, a falta de paciência e disponibilidade para corrigir quantas vezes forem necessárias as atitudes desrespeitosas do filho faz com que pais relevem ou ignorem as pequenas atitudes cotidianas que os filhos têm e que expressam grosseria ou agressividade, quando não violência. O problema é que o crescimento desse tipo de comportamento ocorre em espiral, não é verdade?

Se não cuidarmos para que os mais novos aprendam a valorizar e respeitar a vida familiar, seus pais e os adultos com quem se relacionam, logo teremos notícias de um novo fenômeno: a intimidação, o famoso "bullying", só que as vítimas serão os pais, e os praticantes, os filhos.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
blogdaroselysayao.blog.uol.com.br
roselysayao@uol.com.br

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Deficit de atenção, de Luciana Campaner

Artigo publicado na Gazeta de Ribeirão, de 13/08/2010

Mito ou realidade? Existe mesmo esse transtorno em crianças?

Sim! O Transtorno do Deficit de Atenção (TDA) é um transtorno neurobiológico, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Algumas pessoas só possuem as dificuldades relacionadas à desatenção e concentração mas são quietinhas.

Outras, além de desatentas, são muito agitadas e essa forma é o Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Esse problema é reconhecido oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, em alguns países como os Estados Unidos, os portadores de TDAH são protegidos pela lei quanto a receberem tratamento diferenciado na escola (direito à prova oral, por exemplo).

O transtorno está relacionado a uma região cerebral chamada Lóbulo Pré Frontal, onde acontece um mal funcionamento de alguns neurotransmissores responsáveis pela passagem de informação entre os neurônios.

Essa região cerebral também é responsável pelo “freio” comportamental e pelo controle motor fino. É por isso que os portadores de TDAH geralmente são impulsivos, curiosos, destemidos, desorganizados, estabanados, confrontadores e falantes, isso faz parte do pacote! Existem tratamentos medicamentosos e não medicamentosos e é necessário tratar essas crianças logo cedo para evitar comportamento de risco na adolescência.

Ribeirão Preto sediou na semana passada o maior evento da América Latina sobre esse tema e outros ligados à distúrbios de aprendizagem e desenvolvimento infantil. Foi o “Congresso Aprender Criança 2010: Educação, Mente e Cérebro ao Alcance de Todos”. Organizado maravilhosamente pelo Instituto Glia, o evento teve 1200 participantes de 156 cidades e 13 estados diferentes, entre cursos pré congresso, workshops e palestras. Especialistas de várias partes do Brasil dedicaram cinco dias para o ensino e troca de conhecimento sobre vários problemas que atingem nossas crianças e adolescentes e novas formas de enfrentarmos esses desafios.

Parabéns pela coragem e dedicação do Instituto Glia em, pela terceira vez, organizar um evento de porte nacional em Ribeirão Preto. É disso que precisamos: empenho para um mundo melhor!
Luciana Campaner é psicóloga clínica formada pela USP e com mestrado em neurociências
pela Faculdade de Medicina da USP-RP
site: www.inbio.com.br e e-mail: inbio@inbio.com.br

domingo, 8 de agosto de 2010

A HISTÓRIA DE JOSÉ - Na busca de um nome acabou encontrando um pai

Artigo publicado no jornal TodoDia, de 08/08/2010

José namorava há oito meses uma moça levada e inconstante. Ela era linda e ele estava completamente apaixonado. Num dia qualquer, ela resolveu que não queria mais ficar com ele, e simplesmente o deixou. O coração de José ficou em pedaços! Nem bem ela havia partido lhe chega a notícia de que tinha se amasiado com outro e, detalhe, que estava grávida. José paralisou. Será que ele era o pai? Secretamente procurou a moça para lhe perguntar quem era o pai da criança que estava esperando. Você, ela lhe disse com todas as letras; mas estou com outra pessoa hoje, e é melhor que ele pense ser o pai. José ficou desnorteado. A mulher que ele amava o havia deixado, e ainda lhe dizia que outro iria criar seu filho como se fosse dele. E assim foi. O outro registrou o filho de José como se fosse seu. Pouco tempo depois, no entanto, o convívio do casal começou a ficar conturbado, e se separaram. Moça levada estava solta novamente. Logo José apareceu oferecendo perdão, e tudo o mais que um homem apaixonado pode oferecer. Reataram.

A primeira providência que José tomou foi entrar com uma ação na justiça, reivindicando a paternidade do menino que já estava registrado no nome do outro. Meses se seguiram. A convivência era conflituosa, pois moça levada não queria saber de olhar a criança. Preferia bater papo com as comadres e passear pelas ruas, enquanto José trabalhava para nada faltar. Não demorou muito para que a moça levada cansasse novamente de José, e resolvesse que a vida de casada definitivamente não era para ela. Foi embora pela segunda vez, agora deixando o filho. José se resignou. Aquilo não era mesmo o que ele esperava de uma vida conjugal e familiar.

No início foi difícil, mas sua mãe o ajudou a cuidar do menino que ainda era pequeno. Moça levada passava uma vez por mês para ver como as coisas estavam e levar um presentinho para o filho. A vida seguia e José aguardava o momento de poder registrar o menino em seu nome. Decorridos vários meses, finalmente chegou o grande dia em que o juiz iria se pronunciar. Obviamente, o exame de paternidade do outro deu negativo, isso José já esperava. O que ele não podia sequer imaginar é que o seu exame também havia dado negativo. Ou seja, José também não era o pai do menino. O pai era um terceiro, que nem fez parte da história de José, só havia feito parte da história de moça levada.

O mundo ruiu novamente para José. Como pode acontecer com ele? E aqueles olhinhos, aquelas mãozinhas, aquele sorriso aberto? Aquele menino lindo chamando o papai? Decididamente não poderia perder tudo isso, pois o amor pela criança já havia tomado conta de todo o seu ser. Era o pai e pronto, nada iria mudar isso. Decidido a manter essa situação, ele ingressou com uma ação de adoção. Foi nessa ocasião que conheci José, a moça levada, e o menino lindo de sorriso aberto. E constatei que pai é mesmo quem cria; quem ama; quem educa. O restante é detalhe sem importância numa história que teve final surpreendente. José hoje continua solteiro, mas está feliz. E o menino conseguiu mais que um nome na certidão de nascimento. Conseguiu um verdadeiro pai!

Artigo - Paternidade e vínculos familiares

Publicado na Gazeta de Piracicaba, de 08/08/2010

Andrea R. Martins Corrêa

Não é tarefa fácil refletir sobre o papel de pai em nossa sociedade. O movimento e a dinâmica da história da humanidade criaram configurações familiares outrora impensáveis. É preciso reconhecer que, nos dias de hoje, há diversas maneiras de ser pai, de cuidar dos filhos e de constituir uma família.

A família tradicional e eterna, que se conserva a todo custo no tempo, não é mais soberana. Temos então muitos pais separados e filhos que habitam pelo menos duas residências. Novos laços amorosos, estáveis ou não, são criados, resultando muitas vezes nas chamadas famílias reconstituídas. São casais que já têm filhos de relações anteriores e por isso mesmo desempenham também o papel de padrastos ou madrastas.

Casais adolescentes de namorados desenham ainda outros formatos de organização familiar, ao morar com seus próprios pais para cuidar dos filhos que vieram sem planejamento. Constatamos aqui a forte presença dos avós na educação das crianças.

Poderíamos incluir, nessa breve descrição, as famílias lideradas por mulheres, nas quais a figura do pai inexiste, e também as famílias homo afetivas, cujo casal é formado por pessoas do mesmo sexo.

O cenário é amplo, revelando a enorme diversidade da instituição familiar contemporânea, na qual se desenvolvem vínculos parentais importantes, dentre eles os vínculos de pais e filhos.

É inquestionável que tais vínculos também vêm se modificando, propiciando maior aproximação afetiva entre os filhos e seus pais, para além das mães. Na medida em que estas desempenham mais papéis do que antigamente, principalmente no mercado de trabalho; na medida em que o universo familiar foi adquirindo novas configurações, abriu-se um novo leque de funções para o homem que desempenha o papel de pai: ele também pode e deve cuidar dos filhos, tanto quanto a mãe.

Paternidade, nesta perspectiva, não significa apenas assumir os filhos como seus, provê-los e sustentá-los, mas inclui o exercício da maternagem, algo que implica em carregar os filhos no colo, fazê-los dormir, acompanhá-los na escola, ajudá-los a comer. Cada pai a seu modo, a partir de sua própria disponibilidade e da rede de relações que participa.

Quando pais e filhos têm a possibilidade de compartilhar essa experiência, a vida torna-se mais colorida. O exercício pleno e espontâneo da paternidade enriquece os vínculos familiares, oferecendo aos filhos, especialmente, outras referências de afetividade, de atitudes e de relacionamentos.

Nosso mundo, tão carente de criatividade, agradece. Nossas crianças também. Afinal, não devemos nos esquecer de que, para elas, os pais continuam a habitar um lugar sagrado no reino da imaginação: o lugar de super-heróis, detentores de super poderes, para fazer o bem ou o mal. A escolha, sabemos, é nossa.

Andrea R. Martins Corrêa, Psicóloga e Psicoterapeuta.