sábado, 26 de fevereiro de 2011

Trote e habilidades sociais

Artigo publicado no dia 22/02/2011, no jornal Folha de S.Paulo, no caderno Equilíbrio

É o processo de socialização que vai determinar o desenvolvimento cognitivo da criança

NESTA ÉPOCA DO ANO, não há como não reparar nos trotes universitários. Em toda esquina com semáforo próxima a uma faculdade vamos encontrar, invariavelmente, grupos de calouros pintados.

Eles pedem dinheiro aos motoristas, acompanhados de perto pelos olhares dos alunos veteranos.

Alguns desses calouros participam alegremente da brincadeira, mas outros não.
 

É claro que não são raras as vezes em que podemos perceber que há alguns excessos da parte dos veteranos.

Pintar um ou uma colega pode até ser, de fato, um rito de passagem. Entretanto, atirar ovos, jogar pó de café, mel e farinha nos cabelos das garotas, derrubar potes de tinta no rosto dos rapazes -inclusive nos olhos-, passar a tesoura nas roupas deles não podem ser considerados outra coisa que não abuso.

Por isso, sempre fico envergonhada e constrangida quando cruzo com esses grupos nas esquinas da cidade.

Na semana passada, parei em um cruzamento e um calouro se aproximou de meu carro. Seu rosto estava tão alterado que eu decidi trocar umas palavras com ele, coisa que não costumo fazer.

Perguntei se eu poderia ajudá-lo de alguma outra maneira que não dando dinheiro a ele. O jovem ficou olhando para mim por alguns segundos, em silêncio, e em seguida disse que eu poderia tirá-lo dali.

Confesso que fiquei sem ação, paralisada e impressionada tanto com a expressão facial do garoto quanto com a sua resposta.

O semáforo abriu, precisei andar alguns metros até encontrar um local para estacionar o carro e voltei caminhando até o grupo, em busca de meu interlocutor.

Não consegui mais reconhecê-lo em meio a tantos calouros cobertos de tinta. Até hoje não consigo esquecer do pedido de socorro que ele me enviou e que eu não consegui atender.

Parecia uma criança assustada e sentia-se impotente para sair de uma situação muito difícil e opressiva.

Já vi, muitas vezes, expressões desse tipo estampadas nos rostos de crianças enroscadas em suas crises de birra ou de briga com colegas.

Depois que elas entram nesse tipo de situação, é muito difícil saírem delas sem a ajuda firme e serena de um adulto. Mas, além de conter situações desse tipo, os adultos precisariam fazer mais: ensiná-las a conviver, a desenvolver aquilo que chamamos de habilidades sociais.

Em tempos das chamadas redes sociais, que são contextos virtuais muito próximos dos mais novos, inclusive de crianças, tem sido bem difícil tanto para pais quanto para professores ter a compreensão da importância desse aspecto da educação.

Mais difícil ainda tem sido entender o quanto tal desenvolvimento influencia o crescimento intelectual e emocional dos mais novos. Temos tentado estimular o aprendizado cognitivo das crianças desde que elas são bem pequenas, mas temos dado pouca atenção ao seu processo de socialização. E é esse último que determina o maior ou menor desenvolvimento do primeiro.

O calouro que se sentia humilhado e impotente para sair da situação em que fora colocado por seus pares faz parte de uma geração que tem se socializado praticamente sozinha, sem grande ajuda de nossa parte. Sua reação e a atitude de seus pares mostram a falta que faz a nossa presença nesse processo. Isso é um alerta que deve promover nossa reflexão.

A Unesco, em seu documento a respeito da Educação para o século 21, aponta o que chamou de "Quatro Pilares" como os conceitos definidores do desenvolvimento humano. São eles: "Aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a conhecer".

São conceitos interligados, por isso precisamos dar atenção especial aos ensinamentos de como ser e de como conviver. Sem eles, não há conhecimento cognitivo que sirva para alguma coisa.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de
"Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Fale sério

Artigo publicado no dia 15/02/2011, no jornal Folha de S.Paulo, no caderno Equilíbrio

A criança não acalma sua angústia quando desconfia que os pais dizem qualquer coisa para ela e não a verdade

ALGUNS ANOS ATRÁS, a mãe de uma garotinha que tinha quatro anos na época veio me contar que ficara muito impressionada com um fato que havia acontecido. Fazia um tempo que o casal tentava um segundo filho, mas até então a gravidez não ocorrera. Finalmente, surgiu um sinal: a menstruação dela estava atrasada.

A primeira providência foi ir ao médico, fazer o teste e aguardar pelo resultado com ansiedade. No dia em que a mulher ia receber o resultado do laboratório, a filha dela amanheceu chorosa e não quis ir para a escola. A mãe decidiu ficar com a filha em casa e logo a garota ficou melhor. De repente, a menina diz: "Eu não quero ter um irmãozinho".

A mãe ficou perplexa, porque não imaginava que a filha tivesse qualquer indício do que estava acontecendo. Prontamente, ela deu uma resposta qualquer que nem ela mesma se lembrava qual havia sido, mas que nenhuma relação tinha com o que a filha havia dito.

Sim: as crianças, principalmente as pequenas, estão sempre estreitamente ligadas aos seus pais e conseguem, à sua maneira, entender tudo o que se passa com eles.

É o relacionamento com os pais e com os adultos importantes em sua vida cotidiana - como os professores, por exemplo- o maior responsável pelo saudável desenvolvimento das crianças. E isso inclui os diálogos que ocorrem entre eles e, principalmente, a percepção que a criança tem a respeito das atitudes desses adultos que convivem com ela.

Quando a criança percebe que seus pais estão envolvidos com a possibilidade de uma gravidez, como no caso citado, ela expressa sua angústia em relação a isso. Se não tem possibilidades de desenvolver uma conversa a esse respeito, em que possa ouvir e falar mais, o que pode acontecer? Primeiramente, a criança perde um pouco da confiança que tinha nos pais. E, caro leitor, a confiança nos adultos que convivem com a criança é o que a sustenta neste mundo, é o que lhe permite sentir-se segura para enfrentar o que a vida lhe apresenta.

Ter de resistir a um impulso, não poder realizar na hora em que quer algo que tem vontade, ter de esperar por algo, entre tantas outras coisas, são situações muito difíceis para a criança. Quando ela sabe que conta com adultos confiáveis, tudo fica mais tranquilo.

Após começar a perder a confiança que depositava nos adultos, o segundo passo é a criança passar a desenvolver desconfiança em relação a eles. Você imagina o que isso significa para uma criança?

Se ela precisa ir para a escola e não quer, e os pais dizem que isso é bom para ela, o mesmo em relação ao médico etc., a criança não consegue acalmar a sua angústia, porque desconfia que os pais dizem qualquer coisa para ela -e não palavras verdadeiras. O impacto que isso provoca no desenvolvimento emocional dela é grande.

Por fim, a criança perde o respeito pelos adultos, quando percebe que eles não a levam a sério. O resultado disso é um sentimento de abandono: a criança se sente sozinha em suas questões com a vida e consigo mesma. As consequências dessa perda podem assumir variadas formas na vida da criança e, certamente, nenhuma delas contribui para um desenvolvimento saudável.

Ao dialogar com a criança, pais e professores precisam prestar muita atenção nela.

Ouvir verdadeiramente o que ela expressa pela linguagem verbal ou por qualquer outra permite um encontro significativo entre ambos.

E é isso que ajuda a criança a construir histórias sobre sua vida, a desenvolver sua inteligência e sua vida social e, principalmente, a encontrar-se cada vez mais consigo mesma. Isso é tudo o que ela precisa para crescer bem.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de
"Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que não mata faz crescer

Artigo publicado na Folha de S. Paulo, Caderno Equilíbrio, de 08/02/2011

A criança precisa exercitar paciência, esforço e outros pequenos sofrimentos para se desenvolver

QUEM TEM FILHOS com idade entre seis e 12 anos, mais ou menos, precisa pensar seriamente que, nessa fase da vida, o importante é crescer.

Tem sido muito difícil para essas crianças encontrar oportunidades que as ajudem durante esse processo, porque temos escolhido, muitas vezes, impedir que isso aconteça na hora certa.
Temos atrapalhado o crescimento dos nossos filhos, esse é o fato.

Tomemos como exemplo uma parte importante da experiência das crianças nessa fase, e que deveria ser a sua grande chance de crescimento: a vida escolar.

Primeiramente, vamos entender os motivos disso.

É a partir dos seis, dos sete anos que a criança inicia o período escolar, um processo que deve possibilitar a ela, progressivamente, o acesso aos códigos que, por sua vez, lhe permitirão decifrar o mundo adulto.

Aprender a trabalhar com as letras e os números, com um grau cada vez maior de complexidade, é o que oferece à criança a ferramenta necessária para que ela comece a fazer a sua leitura de mundo, no mais amplo sentido que essa expressão possa ter.

Mas, ainda, com o necessário apoio dos adultos, é importante ressaltar.

Essa nova aquisição possibilita, por sua vez, que a criança ganhe condições de começar a andar com suas próprias pernas.

Até então, vamos lembrar, seus passos eram dirigidos por seus pais ou por outros adultos que acompanhavam de perto sua vida.

Junto com o entendimento mais bem informado do funcionamento do mundo e da compreensão de como a vida é, experiências novas surgem, é claro.

Pequenos deveres e responsabilidades, por exemplo, passam a recair sobre a criança. Novas dificuldades e exigências também fazem com que a criança tenha de exercitar o que antes não precisava, porque cabia ao adulto: paciência, esforço, concentração, espera, superação, entre outros.

O que fazemos nessas horas? Em vez de apoiar a criança, encorajá-la nessa sua nova empreitada, ampará-la em seus inevitáveis, mas ainda pequenos sofrimentos, achamos necessário fazer tudo isso por ela.

De quem é hoje a responsabilidade pela vida escolar dessas crianças? Delas? Dificilmente. São os pais quem tem assumido essa parte da vida por elas, devidamente incentivados pela escola e pela sociedade de uma maneira geral.

E por vida escolar vamos entender tudo o que diz respeito ao período passado na escola: desde a árdua batalha pela aquisição do conhecimento até o convívio com colegas e professores naquele espaço.

Tem sido dever dos pais, por exemplo, o acompanhamento da realização do trabalho escolar que deve ser feito em casa. É dos pais também a preocupação com o rendimento e o desenvolvimento no processo da aprendizagem do filho, bem como o monitoramento do comportamento da criança no espaço escolar.

E o que dizer então a respeito da frustração ao não ser convidado para uma festa ou à experiência de isolamento na hora do recreio?

Tudo isso e ainda mais os pais querem (ou são pressionados a) administrar na vida de seus filhos, nessa segunda e última parte da infância deles. E eles têm assumido tudo isso com orgulho, vamos reconhecer.

Resultado? A criança permanece aprisionada nesse mundo ilusório e mágico em que sempre tudo termina bem - e nunca por sua própria intervenção.

Desse modo, ela não cresce, não desenvolve o seu potencial, tampouco reconhece esse potencial, enfim: não se encontra. Melhor dizendo: ela se encontra sempre na condição de criança, até o dia em que terá de enfrentar o tédio que isso é.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de
"Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

sábado, 15 de janeiro de 2011

O Rei e o Mendigo

Certa vez, um mendigo estava andando com um prato de arroz na mão, quando parou ao seu lado o Rei daquele lugar.

O Rei pediu para o mendigo um pouco do seu arroz.

O mendigo então olhou para o rei e pensou: “Ele pode ter de tudo o quiser” e foi bem mesquinho.

Pegou um único grão de arroz e deu ao Rei.

O Rei, então, fechou o grão dentro da mão do mendigo tocou seu cavalo e foi embora.

Quando o mendigo abriu a mão, levou um susto.

O grão de arroz havia se transformado em uma pepita de ouro.

Neste momento, o mendigo olhou para o prato de arroz e saiu correndo atrás do Rei, dizendo:

-Por favor, Majestade, pare. Eu mudei de idéia, tome mais do meu arroz.

Então o rei disse:

- Não. Você já recebeu tudo aquilo que colocou na vida, de bom grado e de bom coração.

O que se recebe da vida é aquilo que nela se coloca primeiro, nem mais nem menos. É lei.

O que você tem colocado na vida ultimamente?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O amor precisa ser cultivado para brotar e gerar frutos

Artigo publicado no jornal Tododia, da região de Campinas, de 08/11/2010

Às vezes, as crianças dizem coisas comoventes. Quero dividir com vocês a frase de uma menina de oito anos que me deixou muito feliz. Próximo ao dia das crianças, ela pediu à mãe uma boneca Barbie, do recém-lançado filme Moda e Magia. O custo do brinquedo não é nada acessível, então a mãe propôs que a filha escolhesse algo mais barato, esclarecendo que não tinha dinheiro suficiente para comprar aquela boneca. Conformada, a menina escolheu um jogo de canetinhas coloridas que podem ser usadas em azulejos, pois basta lavar com água e sabão que a tinta sai facilmente. Satisfeita com o seu presente, a menina convidou a mãe para tomar banho com ela. Poderiam brincar juntas fazendo desenhos na parede do banheiro. A mãe concordou e ambas tomaram um banho divertido. A brincadeira consistia em cada qual desenhar algo que a outra teria de adivinhar o que era. Assim, muitos desenhos foram feitos. Dando sequência à brincadeira, a menina fez algo semelhante a um coração. De cima, saía uma haste onde havia duas folhinhas. A mãe logo imaginou se tratar de um pêssego, no entanto, foi surpreendida pela resposta da filha: - Não, mãe. É um coração cultivado de amor! A mãe chorou de emoção diante das palavras da menina, pois percebeu que o amor é realmente uma construção, e precisa ser cultivado.

Algumas pessoas me perguntam por que o mundo está superficial, violento, frio. Imaginam que o amor deveria solucionar todos os problemas, e o veem como algo mágico, pressupondo que brota das pessoas como a água da mina. Cometem um pequeno equívoco. As pessoas nascem capacitadas para amar, mas isso não quer dizer que sejam obrigadas a fazer essa escolha. Atualmente, muitos optam em seguir sozinhos (individualismo), deixando de lado ações comunitárias, altruístas e solidárias. Procuram a satisfação de seus próprios desejos (egoísmo), pouco se importando se ferem ou magoam as outras pessoas. Priorizam o aspecto financeiro (ter), ao invés de investirem em valores imutáveis e perenes, como a moral e a ética. Optam por acumular bens e riquezas, desejando sempre mais (ganância), quando poderiam partilhar os dons e talentos com os quais foram agraciados desde o nascimento. É uma questão de escolha.

Para escolher o amor, precisamos conhecê-lo. Ele não brota simplesmente dos corações, mas precisa ser cultivado. A vivência do amor exige renúncia, principalmente ao egoísmo (amor-próprio), e atos de serviço (doação). Examine como é isso mesmo que acontece quando uma mulher se torna mãe. Ela cede o próprio corpo para o desenvolvimento de uma nova vida, suportando todos os incômodos advindos dessa situação. Posteriormente, ela continua se doando ao amamentar e cuidar de seu filho. Hoje em dia, muitas mulheres já estão fazendo outras escolhas. Algumas optam por não terem filhos. Outras por não amamentar. Muitas por deixar a criança aos cuidados de terceiros. Vai ficando difícil cultivar o amor, pois não existe tempo nem interesse para isso. Impressiono-me com tantas lamentações, já que o resultado dessas atitudes é tão óbvio. Só pode dar amor quem o recebeu, quem aprendeu e assimilou o significado de amar. Isso não me parece tão difícil de entender, já que a protagonista de nossa história tinha apenas 8 anos de idade. Vale ressaltar que somente corações cultivados podem dar frutos!


Maria Regina Canhos Vicentin, Escritora